O governo britânico está sequenciando o DNA de recém-nascidos. E isso deveria assustar algumas empresas de genética.

O DNA está deixando de ser o produto para se tornar apenas parte da infraestrutura da saúde do futuro. O verdadeiro valor não está em ler genes isoladamente, mas em conectar genética, comportamento, biomarcadores e inteligência artificial para entender cada indivíduo em contexto. A próxima revolução da saúde será guiada menos por testes e mais por interpretação inteligente dos dados.

Não pelo motivo que você imagina.

Na verdade, eu acho que é uma excelente notícia.

Porque talvez seja o começo do fim do negócio mais comum da indústria genética: vender teste de DNA.

Outro dia vi a notícia de que o Reino Unido pretende ampliar o sequenciamento genômico de recém-nascidos dentro do NHS.¹

Minha primeira reação foi simples:

“Pronto. O DNA virou commodity.”

E eu digo isso como fundador de uma empresa de genética.

Imagine alguém em 1995 dizendo:

“Tenho uma empresa revolucionária porque vendo acesso à internet.”

Hoje parece engraçado.

Ninguém vende internet como diferencial.

A internet virou infraestrutura.

A mesma coisa aconteceu com GPS.

Com armazenamento em nuvem.

Com computadores.

Com eletricidade.

Você não compra energia elétrica porque acha a tomada fascinante.

Você compra porque quer ligar alguma coisa.

O DNA está entrando exatamente nessa fase.

Durante anos, o mercado vendeu a ideia de que o teste genético era o produto.

Mas isso é como acreditar que o mapa é mais importante que a viagem.

O filósofo grego Heráclito dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio.

Porque o rio muda.

E a pessoa também.

O DNA é o mapa.

Mas o rio é a vida real.

Você dormiu mal.

Engordou.

Treinou.

Parou de treinar.

Teve filhos.

Mudou de emprego.

Tomou Mounjaro.

Perdeu peso.

Recuperou peso.

Seu DNA continua praticamente igual.

Mas você mudou completamente.

Por isso eu sempre achei curioso quando alguém mostrava um relatório genético de 70 páginas e dizia:

“Agora você conhece seu corpo.”

Não.

Agora você conhece seu DNA.

Que são coisas muito diferentes.

É como conhecer a planta baixa de uma casa e acreditar que sabe quem mora nela.

Você sabe onde ficam os quartos.

Não sabe o que acontece dentro deles.

É aí que a história fica interessante.

Porque enquanto o mundo discute Mounjaro, Ozempic e a próxima geração de medicamentos para obesidade, uma transformação muito maior está acontecendo silenciosamente.

Estamos começando a gerar uma quantidade absurda de dados sobre nós mesmos.

Sono.

Passos.

Frequência cardíaca.

Exames de sangue.

Exercícios.

Glicose.

Alimentação.

DNA.

O problema deixou de ser falta de informação.

Virou excesso de informação.

Sêneca dizia que não existe vento favorável para quem não sabe para onde vai.

Hoje temos o problema oposto.

Temos vento demais.

Dados demais.

E pouca capacidade de transformá-los em decisões.

É exatamente por isso que acredito que a próxima grande empresa de saúde não será aquela que faz o melhor teste genético.

Será aquela que melhor conecta genética, biomarcadores, comportamento e inteligência artificial.

Porque o valor nunca esteve no DNA.

O valor está no contexto.

Imagine dois indivíduos com exatamente a mesma predisposição genética para obesidade.

Um dorme oito horas.

Outro dorme cinco.

Um caminha todos os dias.

Outro passa o dia sentado.

Um come proteína suficiente.

Outro vive de ultraprocessados.

Mesmo DNA.

Resultados completamente diferentes.

A genética fornece possibilidades.

O comportamento escolhe quais delas serão realizadas.

Aristóteles já falava disso há mais de dois mil anos.

“Somos aquilo que repetidamente fazemos.”

Não aquilo que carregamos nos genes.

Não aquilo que está escrito em um relatório.

Mas aquilo que repetimos todos os dias.

Por isso, na Epigene, sempre acreditamos que o exame genético era apenas o começo da conversa.

Nunca o destino final.

O futuro não será construído por empresas que apenas leem DNA.

Será construído por empresas que entendem pessoas.

Empresas capazes de conectar:

DNA.

Exames laboratoriais.

Sono.

Exercício.

Alimentação.

Histórico clínico.

E inteligência artificial.

Tudo ao mesmo tempo.

O anúncio do Reino Unido é interessante justamente por isso.

Ele não mostra que a genética ficou mais importante.

Mostra que ela ficou comum.

E quando uma tecnologia fica comum, o jogo muda.

O diferencial deixa de ser possuir a informação.

O diferencial passa a ser saber o que fazer com ela.

E eu tenho certeza que é exatamente aí que a próxima revolução da saúde vai acontecer.

Fonte: O governo britânico anunciou a expansão do sequenciamento genômico neonatal como parte da estratégia de medicina preditiva do NHS, apoiando iniciativas da Genomics England e do NHS England para ampliar o uso da genômica na saúde pública.

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