Por Gilberto Pires
Pare de chamar isso de medicina de precisão.
Se você não sabe como seu paciente dormiu ontem, o que ele comeu hoje, se treinou esta semana ou se abandonou o tratamento há 40 dias, você não faz medicina de precisão.
Você faz medicina por amostragem.
A cada consulta, uma foto.
A doença acontece no intervalo.
O ganho de peso acontece no intervalo.
O burnout acontece no intervalo.
O infarto acontece no intervalo.
E quando o paciente volta pior, a desculpa é sempre a mesma:
“A culpa é dele. Não aderiu.”
Que conveniente.
A verdade é que muitos profissionais continuam trabalhando exatamente como trabalhavam há 20 anos, mas agora usam palavras modernas como “preventiva”, “integrativa”, “funcional” e “personalizada”.
O marketing mudou.
O modelo mental continua o mesmo.
Enquanto isso, a inteligência artificial está aprendendo a acompanhar pessoas 24 horas por dia.
Não uma IA genérica que responde perguntas.
Uma IA que conhece genética, epigenética, exames, sono, alimentação, atividade física e comportamento.
Uma IA que observa o que acontece quando o paciente sai do consultório.
Porque é lá que a saúde acontece.
O maior risco para a saúde não é a inteligência artificial substituir médicos.
É pacientes perceberem que estavam pagando por acompanhamento quando, na verdade, recebiam apenas opiniões periódicas.
A próxima geração de profissionais não será substituída pela IA.
Será substituída por profissionais que usam IA para acompanhar, medir, corrigir rota e gerar resultado real.
O resto continuará culpando o paciente.
Até o paciente ir embora.
Essa versão tem mais cara de fundador provocando o mercado, menos tom acadêmico e mais confronto direto com a incoerência entre o discurso de “medicina de precisão” e a falta de acompanhamento contínuo.
